Ouso dizer a quem me lê, e sem nenhuma dúvida, que o mundo nunca mais foi o mesmo após uma revolução que radicalizou a relação entre homens e mulheres a partir da década de 60. Uma mudança de proporções bombásticas. Sim, sim, vale o exagero. A revolução sexual (ela mesma!) significou uma ruptura dos padrões e comportamentos já estabelecidos, um grito de liberdade em favor do próprio corpo.

É impossível dissociá-la da luta feminista do século XX. Uma militância pelos direitos igualitários e pela independência. Uma reivindicação pelo prazer e pela igualdade sexual. Mulheres sempre foram subjugadas pelos homens desde tempos muito antigos, dos quais só conhecemos através de narrativas míticas. Como exemplo, temos Eva, um ser feito para servir ao homem, e que carregou quase toda a culpa pelo pecado de dar ouvidos à serpente falante, aceitando dela aquela tal maça proibida. Eva virou tentação, um instrumento do demônio para desvirtuar o sexo oposto. Como castigo pelo erro cometido, foi lançada às paredes do lar, aprisionada pelo domínio de um Adão arrependido.

Na narrativa bíblica e durante quase toda a história da humanidade, as mulheres estiveram escondidas atrás dos homens. Cobertas, caladas, ignoradas, reprimidas, resignadas, “protegidas” pela moral hipócrita que dita até hoje a todas elas o que seria um comportamento aceitável, bem diferente da liberalidade oferecida ao sexo oposto. Mulheres sempre foram alvo de preconceitos. Passos errados femininos sempre foram passos mais errados.

Mas os anos 60, década de efervescência cultural, política e social, foram o palco de mudanças tão profundas, que alteraram o comportamento feminino e a visão em relação a mulher, além de terem dividido as relações amorosas do século XX em duas fases. Nada seria como antes após a revolução sexual. E não foi, não foi mesmo.

O sociólogo Anthony Giddens, um papa da discussão sobre as transformações da intimidade no século passado, chega a definir três tipos de relacionamentos amorosos forjados em meio às mudanças provocadas pela revolução sexual, como a rejeição à proposta burguesa-cristã de sexo voltado somente para a procriação e à visão socialmente estabelecida na qual a mulher figurava apenas como esposa e mãe. Para Giddens, as relações surgidas a partir da década de 60 são marcadas pelo relacionamento puro, pelo amor confluente e pela sexualidade plástica. O primeiro conceito se refere a uma relação baseada no compromisso e na satisfação recíproca. Aqueles que fazem parte do relacionamento devem oferecer, através de atitudes a palavras, garantias de sua durabilidade. A relação, entretanto, pode chegar ao fim a qualquer momento, caso algum dos parceiros assim queira. O relacionamento puro está na base dos namoros e dos casamentos contemporâneos. Uma relação amorosa comum, diriam todos. Antes dos anos 60, no entanto, compromissos desse tipo quase nunca chegavam ao fim. Namorava-se para casar, e o casamento atribuía uma respeitabilidade tão grande ao casal, que eles dificilmente pensavam em se separar, mesmo correndo o risco de se comerem vivos dentro de casa.

amor confluente, por sua vez, é aquele mais real do que o amor romântico porque, ao contrário deste, não se fundamenta no futuro, nem se baseia na fantasia de completude. Não tem, também, comprometimento com a heterossexualidade e a monogamia. A base desse tipo de relação é a reciprocidade do afeto e do envolvimento emocional. O amor confluente também eleva o prazer sexual ao patamar de elemento-chave na permanência ou dissolução do relacionamento.

Por fim, a sexualidade plástica, que define uma prática sexual independente de objetivos reprodutivos, está no centro de quase todos os relacionamentos. Faço essa ressalva porque uma parcela da população mundial ainda vive sobre padrões e morais antigos, como os países islâmicos, certas tribos africanas, certas carolas da carochinha enfurnadas por aí.

Essas três formas de relacionamento integram-se frequentemente e representam um novo comportamento em relação ao amor e à intimidade. Através deles, mulheres contrariam sua condição “natural” de submissão, transgredindo muitas vezes a moral tradicional, que, como vidro ruim, não se quebra. Permitindo relacionamentos mais igualitários, as mudanças proporcionadas pela revolução sexual também trouxe consigo o fantasma da efemeridade, o desapego em relação ao outro. Seus benefícios para a condição feminina, no entanto, são o que mais fizeram história, já que serviram para denunciar a opressão social e existencial da qual são vítimas todas as mulheres.

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