Um fracasso como romântica

Sentei-me atrás de um casal hoje no ônibus. Conversa aqui, beijinho ali, e, bingo, lá estavam eles caindo na pieguice certa dos enamorados. Como o amor sabe ser cafona. “Ném”, “bebezinho” e por aí vaí, e eu já havia virado um paradoxo. Naquele engarrafamento que só crescia, dentro daquele ônibus que não andava, alternava meu status: incomodada – interessada – incomodada – interessada – interessada. Pois, então…agucei a audição e me pus a ouvir.

O amor tem a capacidade de bloquear o que temos de mais essencial: a razão. Por outro lado, estimula um sem número de impulsos incontroláveis: mãos suadas, faces coradas, pernas bambas, risos descontrolados e, como cantavam os saudosos Sandy e Jr., aquele “turuturu forte aqui dentro (do peito)” . Odes ao sentimento à parte, voltamos ao que interessa: o poder do amor em  transformar as pessoas.  

A menina do ônibus era loira. Nesse momento, bem que poderia entrar aqui uma piada batida associando platinadas à burrice, mas fujo dessa obviedade.  Burra ou não, a loira deveria estar na faixa dos 22 anos, mas falava como um bebê. O namorado, aparentando a mesma idade, ria, ria, ria, ria. Assim mesmo, nessa proporção. Calo-me diante dessa manifestação do rapaz. Sofro do mesmo mal. Só espero não parecer tão retardada quanto ele.

Não vi (ouvi) motivo para a infantilização da fala, nem para a constância e descontrole do riso, mas eles ficaram nessa até o ônibus parar no segundo ponto da rua. E para isso acontecer, levou um tempo enorme.

O amor carece de estímulos. Sem eles, não dura. É uma faca de dois gumes: incentiva tais manifestações; não sobrevive sem elas. Amor vive cercado de carinho, bilhetinhos escritos com caneta colorida, coraçõezinhos, conversas no diminutivo, apelidos constrangedores, interminável disputa para ver quem não desliga o telefone primeiro. Como o amor sabe ser infantil, não?!

Quando o ônibus parou no segundo ponto da rua, a loira desceu. Antes disso, o abraço apertado, amorzinho pra lá, benzinho pra cá. A despedida não se estendeu. A fila a passar pela roleta era pequena. Ele olhou pela janela, deu tchau. Ela, fora do ônibus, em pé na calçada, jogou um beijo e virou as costas. O ônibus tomou seu rumo. Andou um metro e parou no engarrafamento. O rapaz, então, abriu a mochila e tirou dela uma edição do Lance! do mesmo dia. Pôs-se a ler para matar o tempo. Nem de longe lembrava o abobalhado de antes. Eu virei a cara em direção à janela. Só restava observar o movimento da rua.

Posso ser um fracasso como romântica, mas sei que o amor é o melhor passatempo.

Ouso dizer a quem me lê, e sem nenhuma dúvida, que o mundo nunca mais foi o mesmo após uma revolução que radicalizou a relação entre homens e mulheres a partir da década de 60. Uma mudança de proporções bombásticas. Sim, sim, vale o exagero. A revolução sexual (ela mesma!) significou uma ruptura dos padrões e comportamentos já estabelecidos, um grito de liberdade em favor do próprio corpo.

É impossível dissociá-la da luta feminista do século XX. Uma militância pelos direitos igualitários e pela independência. Uma reivindicação pelo prazer e pela igualdade sexual. Mulheres sempre foram subjugadas pelos homens desde tempos muito antigos, dos quais só conhecemos através de narrativas míticas. Como exemplo, temos Eva, um ser feito para servir ao homem, e que carregou quase toda a culpa pelo pecado de dar ouvidos à serpente falante, aceitando dela aquela tal maça proibida. Eva virou tentação, um instrumento do demônio para desvirtuar o sexo oposto. Como castigo pelo erro cometido, foi lançada às paredes do lar, aprisionada pelo domínio de um Adão arrependido.

Na narrativa bíblica e durante quase toda a história da humanidade, as mulheres estiveram escondidas atrás dos homens. Cobertas, caladas, ignoradas, reprimidas, resignadas, “protegidas” pela moral hipócrita que dita até hoje a todas elas o que seria um comportamento aceitável, bem diferente da liberalidade oferecida ao sexo oposto. Mulheres sempre foram alvo de preconceitos. Passos errados femininos sempre foram passos mais errados.

Mas os anos 60, década de efervescência cultural, política e social, foram o palco de mudanças tão profundas, que alteraram o comportamento feminino e a visão em relação a mulher, além de terem dividido as relações amorosas do século XX em duas fases. Nada seria como antes após a revolução sexual. E não foi, não foi mesmo.

O sociólogo Anthony Giddens, um papa da discussão sobre as transformações da intimidade no século passado, chega a definir três tipos de relacionamentos amorosos forjados em meio às mudanças provocadas pela revolução sexual, como a rejeição à proposta burguesa-cristã de sexo voltado somente para a procriação e à visão socialmente estabelecida na qual a mulher figurava apenas como esposa e mãe. Para Giddens, as relações surgidas a partir da década de 60 são marcadas pelo relacionamento puro, pelo amor confluente e pela sexualidade plástica. O primeiro conceito se refere a uma relação baseada no compromisso e na satisfação recíproca. Aqueles que fazem parte do relacionamento devem oferecer, através de atitudes a palavras, garantias de sua durabilidade. A relação, entretanto, pode chegar ao fim a qualquer momento, caso algum dos parceiros assim queira. O relacionamento puro está na base dos namoros e dos casamentos contemporâneos. Uma relação amorosa comum, diriam todos. Antes dos anos 60, no entanto, compromissos desse tipo quase nunca chegavam ao fim. Namorava-se para casar, e o casamento atribuía uma respeitabilidade tão grande ao casal, que eles dificilmente pensavam em se separar, mesmo correndo o risco de se comerem vivos dentro de casa.

amor confluente, por sua vez, é aquele mais real do que o amor romântico porque, ao contrário deste, não se fundamenta no futuro, nem se baseia na fantasia de completude. Não tem, também, comprometimento com a heterossexualidade e a monogamia. A base desse tipo de relação é a reciprocidade do afeto e do envolvimento emocional. O amor confluente também eleva o prazer sexual ao patamar de elemento-chave na permanência ou dissolução do relacionamento.

Por fim, a sexualidade plástica, que define uma prática sexual independente de objetivos reprodutivos, está no centro de quase todos os relacionamentos. Faço essa ressalva porque uma parcela da população mundial ainda vive sobre padrões e morais antigos, como os países islâmicos, certas tribos africanas, certas carolas da carochinha enfurnadas por aí.

Essas três formas de relacionamento integram-se frequentemente e representam um novo comportamento em relação ao amor e à intimidade. Através deles, mulheres contrariam sua condição “natural” de submissão, transgredindo muitas vezes a moral tradicional, que, como vidro ruim, não se quebra. Permitindo relacionamentos mais igualitários, as mudanças proporcionadas pela revolução sexual também trouxe consigo o fantasma da efemeridade, o desapego em relação ao outro. Seus benefícios para a condição feminina, no entanto, são o que mais fizeram história, já que serviram para denunciar a opressão social e existencial da qual são vítimas todas as mulheres.

Amor segundo Chico Buarque

Muito já se falou sobre o destaque dado à mulher e aos marginalizados na obra de Chico Buarque. Ampliando a percepção para outros temas abordados pelo artista, sempre me questionei sobre a representação do amor em suas canções e sobre o modo como homens e mulheres vivenciam as relações amorosas. Tal interesse me levou a escolher essa vertente da produção de Chico como tema da minha monografia de conclusão do curso de Jornalismo. Esse blog, aliás, também é um fruto desse trabalho, que me trouxe tanta alegria e pelo qual me sinto muito orgulhosa.

Antes de começar a destrinchar o universo amoroso da obra buarquiana, cito aqui uma canção do compositor, síntese de sua visão do sentimento:

Em Samba do Grande Amor, de 1983, o emissor da canção revela seu descontentamento em relação ao sentimento. A palavra “mentira”, repetida exaustivamente ao longo de toda a música, se refere a sua descrença no amor, um desencanto proveniente de desenganos e decepções que se sucedem nos versos. A composição é apenas um exemplo dentre tantos outros nos quais Chico explora uma representação do amor que foge do ideal construído pelos contos de fadas, pelos finais felizes das novelas e dos filmes românticos, em que relações amorosas e perfeição caminham juntas em sintonia. O amor de Chico é real, não aquele que sonhamos, mas aquele que vivemos. Um amor que divide espaço com os problemas cotidianos, com a mesmice da rotina, com as contas a serem pagas, os filhos a serem educados, as puladas de cerca, as acolhidas resignadas, os conflitos das ideias e personalidades contrárias.

Nas canções de Chico, fantasias quase nunca sobrevivem, amores são imperfeitos e inatingíveis, e príncipes viram sapos da noite para o dia, como nos queixa a pobre e desiludida Lily Braun nos versos dessa composição de 1982, escrita em parceria com Edu Lobo:

Como num romance

O homem dos meus sonhos

Me apareceu no dancing

Era mais um

Só que num relance

Os seus olhos me chuparam

Feito um zoom […]

Abusou do scotch

Disse que meu corpo

Era só dele aquela noite

Eu disse please

Xale no decote

Disparei com as faces

Rubras e febris

E voltou

No derradeiro show

Com dez poemas e um buquê

Eu disse adeus

Já vou com os meus

Numa turnê

Como amar esposa

Disse ele que agora

Só me amava como esposa

Não como star

Me amassou as rosas

Me queimou as fotos

Me beijou no altar

Nunca mais romance

Nunca mais cinema

Nunca mais drinque no dancing

Nunca mais cheese

Nunca uma espelunca

Uma rosa nunca

Nunca mais feliz

Que qualidades ímpares possui o escolhido de nossa emissora antes do casamento. Encantada, ela cede, abandona a vida de dançarina por uma ao lado do amado. Eis, então, que tudo se transforma. Do modelo de relação amorosa ardente e apaixonada, um casamento morno, sem paixão, sem fogo. Nunca mais feitiço, nunca mais encanto. O beijo no altar de Lily Braun sela o desfecho de um romance, o último suspiro de uma fantasia  que, afinal de contas, cerca todos os amores. Mais buarquiano, impossível.

O Amor Romântico

O romântico é também um iludido. Vive o sonho bom que todos sonham: o da felicidade eterna, da fidelidade inquebrável, do equilíbrio e da perfeição que não se rompem no dia a dia, nas palavras duras, na realidade que subjuga o modelo. Amar romanticamente é fechar os olhos. Ou ser cego.

No quadro The Lovers, o pintor belga Magritte pinta o retrato de dois amantes. Com os rostos cobertos, eles se beijam. O pano que os cobre impede o contato real. A imagem fala.

O Amor Romântico, assim mesmo, com a pompa e a importância das letras maiúsculas, é um credo amoroso que nos domina há quase três séculos. Instituído pelo projeto familiar burguês e pelos folhetins que se popularizaram rapidamente entre as mocinhas sonhadoras e as mulheres mal amadas do século XVIII, essa representação do sentimento nos fez ansiar pelo amor perfeito, eterno, recíproco e feliz, desfrutado ao lado da alma gêmea idealizada, sem defeitos. É esse tipo de amor que as novelas, filmes, músicas e livros celebram no final feliz que sempre contam, com sua esperança compartilhada por espectadores, ouvintes e leitores de cumplicidade e completude infinitas.

Já o quadro de Magritte sinaliza essa cegueira dos românticos, tão dispostos a viverem um conto de fadas, que se perdem nas próprias expectativas. A carapaça impede a visão do real. Ninguém é perfeito, ninguém é um modelo de virtudes. Não se pode esperar que a mesma expressão do sentimento se repita em todos. Cada um é um.

O modo de amar romântico é uma doce experiência que, mais cedo ou mais tarde, vai mostrar sua verdadeira cara. Amor romântico é expectativa pura. E com tanta supervalorização da pessoa amada e exigências para que esse ideal persista, não é de se estranhar que, uma hora ou outra, a máscara caia.

Já pararam para pensar em todas as influências que recebemos dos gregos? A política e o conceito de democracia, a filosofia, a retórica, as artes e a visão do homem como centro do mundo foram apenas algumas delas.  A Grécia também nos deixou como herança a mitologia grega, resultante da busca  incessante do homem de compreender o mundo e explicar a realidade a sua volta; sustentada pela crença no oculto, no sobrenatural e no poder divino exterior ao mundo terrestre.  Na mitologia grega,  encontramos as primeiras tentativas de explicar o amor.

Para os gregos, o amor é Eros, deus primordial, nascido do vazio do Caos e responsável pela união de todos os seres. Sem Eros, não haveria vida. Sem Eros, não existiria mundo. O discurso mítico grego também explica o amor através da figura de uma criança alada, de olhos vendados, munida de arco e flecha nas mãos. Uma representação de que o sentimento é irracional, cego, e provém da luta armada pela conquista.

O amor é, também, a força que integra duas partes separadas de um mesmo ser. Na origem do mundo, todos os seres seriam andróginos, metade homem, metade mulher. Sua perfeição e sintonia teriam provocado a ira de Zeus, o maior de todos os deuses, que os dividiu ao meio. No mito dos andróginos, Eros sela o encontro das duas metades perdidas, a fusão de duas almas gêmeas, a busca final de todos os que amam.

É possível viver sem amor? Sem a felicidade encontrada em um ser para nós singular, cuja existência nos faz viver, transbordando em nosso peito um sentimento de natureza indefinível que cresce, nos consome e nos arrebata? Influenciados por livros, filmes, canções e por nossas experiências cotidianas, que apontam como sentido de nossa existência o encontro da pessoa amada, responderíamos: não, é impossível viver sem amor.

Pois a experiência amorosa é intrínseca ao homem. É do homem, como animal, desejar reproduzir-se, perpetuar sua espécie. E é do homem, como indivíduo, distinguir-se do resto dos seres vivos através de sua capacidade de pensar e atribuir sentido a essa relação com o outro.

O amor surgiu da capacidade humana de explicar o mundo e as próprias experiências, construindo, assim, os conceitos e valores que sustentam a sociedade. E como o homem não é o mesmo em diferentes contextos históricos e sociais, seu modo de enxergar a realidade varia, produzindo diferentes significados, dentre os quais estão aqueles atribuídos ao amor.

São objetivos deste blog discutir e analisar essas diferentes visões acerca do sentimento e  as transformações na maneira com que   homens e mulheres vivenciam essa experiência. Discutirei aqui muitas das expressões amorosas surgidas ao longo da história, destacando o chamado “amor romântico”, representação dominante há cerca de três séculos que encanta os apaixonados com suas premissas de fidelidade, completude e eternidade. A contradição entre esses ideais e a realidade de uma relação amorosa repleta de conflitos e imperfeições nos acompanharão nesse percurso pelas diferentes faces do amor, que, de doce, pouco tem.

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